EU QUERIA SER UM TOMATINHO

Eu preferia ser um cabide
Prendedor de roupas seria mais que suficiente
Podia ser Pipa, Garfo, Lata, Pneu
Um chuchu que fosse

Por que não vim caixa de papelão?
Balde, chinelo, mamona, gravata
Copo, janela, muro, chapéu
Antes tivesse nascido lápis de cor

Pires, antena, poste, capim
Pão francês, canivete suíço
Eu queria ser um tomatinho

Qualquer coisa
Pra não precisar pensar sobre o amor

2www.lomography.com BARRA homes BARRA aanumaanum

Acordei mais um dia e ainda não sou um tomatinho — pensar sobre o amor (e me angustiar com isso) segue sendo condição da minha existência. Se você não é um tomatinho, um poste ou um canivete suíço, grandes são as chances de que o amor e a falta dele sejam presentes em sua vida também. Por que, então, sermos resistentes? Vamos a ele.

// Maio de 2005

Era a semana que antecede o domingo de dia das mães. Nossa aula de Química fora transformada em uma aula de artes, em que nós deveríamos criar cartões para presentear nossas mães. Eu olhava em volta e todos os meus colegas pareciam muito compenetrados e certos do que estavam fazendo. Desenhando e colorindo com a naturalidade de quem sabe que o gesto de entregar um cartão seria uma merecida demonstração do amor que sentem por suas mães.

Eu não sentia o mesmo. Lembro da folha sulfite completamente branca e lembro de estar paralisado. Olhei em volta, invejando o empenho dos meus colegas e tentando ter a mesma certeza que eles tinham de que eu deveria amar minha mãe ao invés de ter raiva dela. Não estava funcionando.

Sou atrevido. De um jeito ou de outro, sempre fui. Pois se eu precisava mesmo fazer um cartão de dia das mães, eu faria um cartão sincero, com tudo o que eu realmente estava sentindo.

Fui um dos últimos alunos a entregar o cartão ao professor — a escola o retornaria para mim junto de um outro presente personalizado, provavelmente uma caneca gravada com o nome da minha mãe. A reação do professor ao receber meu cartão fez todos da sala se calarem e virarem para nós.

cv 1Canibal Vegetariano

Nunca refleti de verdade sobre essa situação em particular. Pensando agora, me pergunto se o professor temeu pelo meu futuro (o que vai ser desse menino?). E qual teria sido a reação e o sentimento da minha mãe ao receber um cartão como aquele?

Lembro como se fosse ontem. O cartão era um desenho da minha mãe, sozinha, e os dizeres “Feliz Dia da Mães”. Um tanto neutro, mas nada fora do comum para um adolescente que quer demonstrar seu amor, a não ser pelo fato de que a minha mãe no desenho tinha asas de anjo e uma auréola… junto de dois chifres vermelhos e um rabo pontudo de diabinho. O que eu estava pensando?! Meu professor ficou indignado, “Onde já se viu?! Como você vai entregar isso? Coitada dessa mãe!”

Ele tinha razão. Eu não queria estar na pele da minha mãe ao receber aquele cartão — por isso não o entreguei. Presenteei minha mãe apenas com a caneca, aquilo foi tudo o que ela ganhou naquele ano.

cv 2Canibal Vegetariano

Acho que não preciso dizer que minha adolescência foi difícil pra mim, um momento de completa confusão na minha cabeça. Não que isso justifique qualquer coisa, não estou tentando salvar minha reputação de sujeito agradável. Em muitos momentos, muitos mesmo, não sou nem um pouco agradável. Posso ser nobre e generoso, mas posso ser orgulhoso, muito individualista e agir como o dono da razão, e sei o quanto isso mata o outro. Eu convivo em absoluta paz com meu jeito de ser e constantemente tento melhorar, mas, ao longo da minha vida, isso tem me atrapalhado muito a entender o amor das pessoas por mim.

Eis a questão: descobri que não preciso entender apenas o amor, mas também o formato em que esse amor me é oferecido.
Amores cheios de afeto ou mais frios, amores carentes ou autossuficientes, ele vem em várias formas. Hoje eu escolho aceitar. Ser mais tolerante com o outro e entender que cada um ama como sabe e ama como pode. Até porque, ao que me consta, cobrar amor nunca funcionou. Água mole em pedra dura tanto bate até que aceita, não é mesmo? Ou se enche e vai embora, o que funcionar melhor pra você.

Falo aqui da minha mãe porque é um dos meus maiores amores e o que eu passei a entender mais recentemente. Se faltavam abraços, sobrava respeito. Onde eu pensava faltar cuidado, existia apoio incondicional pra eu fazer minhas escolhas. Quando pensei faltar amor, o amor certamente estava. Por vezes eu quis que ele viesse em outros formatos e talvez isso me tenha feito independente como sou hoje. Talvez tenha contribuído também para eu ser fechado e individualista, mas não dá pra ganhar todas. E sabem o que mais? Eu sou idêntico a ela, sou todinho a minha mãe. Em qualidades, defeitos e maçãs do rosto.

São tantas as possíveis situações — A forma de amar do seu namorado, que você não compreende, o amor pela sua cidade, que você pensa que detesta, e o maior amor de todos, o amor próprio, que leva tempo pra aprender a ter. Muito do que eu pensava sobre amor e sobre amar era incorreto pois me faltava maturidade e paciência para compreender. Mas ainda há mil coisas que eu sei e um milhão que eu não sei. Desconfio, inclusive, que se eu pensar mais um pouco vou acabar concluindo que até os tomatinhos sofrem pensando sobre isso.

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