MEUS ÓCULOS DE ONCINHA

Eu tenho um par de óculos escuros com armação de oncinha.

Não importa quantas vezes tentem me ensinar que aquela estampa chama-se casco de tartaruga, pra sempre aquilo será oncinha pra mim. Se bem me lembro, essa foi uma das primeiras coisas que comprei com meu próprio dinheiro, alguns anos atrás. Fui sozinho até a loja e sozinho escolhi aquele par.

Quando fazia sol e eu usava meus óculos de oncinha para ir ao trabalho, eu os tirava e guardava na mochila uma quadra antes de chegar na portaria da empresa. Veja, não estou dizendo que eu me peguei um dia guardando meu óculos antes de entrar na empresa. Estou dizendo que este era um ritual. Eu sabia perfeitamente que, antes de entrar na empresa onde trabalho, eu guardaria na mochila meus óculos escuros com armação de oncinha. Estou dizendo que eu decidia, todos os dias, caminhar por uma quadra com os olhos espremidos sem necessidade porque preferia guardar os meus óculos.

Muito bem.

Eu tenho a teoria de que todos nós guardamos pelo menos uma coisa da qual temos consciência 100% do tempo. Aquela coisa sobre nós mesmos que pode até ficar em segundo plano na nossa cabeça em vários momentos, mas está sempre ali e é facilmente despertada. Como a sensação de sair de casa de manhã e não ter certeza se trancou a porta da frente; todos os dias da sua vida.

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100% do tempo que passo acordado eu tenho consciência de que sou gay.

É uma consciência calma, sem culpa ou opressão. Porém presente. Então vigio meus movimentos, inconscientemente presto atenção a como caminho, como me sento, como falo. Mas, por quê? O que me causa medo?

A resposta fácil seria “As pessoas”. O julgamento e a o confronto com os outros. Sempre eles, esses “Outros”. Os outros que julgam, que concluem, que condenam. Mas o gato só persegue o rato porque também é perseguido pelo cachorro, que, por sua vez, é chutado pelo menino, que apanha do pai… entender isso foi muito importante pra mim. Hoje é muito claro que quem te oprime é certamente oprimido de alguma forma.

Porque é muito difícil para uma pessoa insegura ver no outro aquilo com que não sabe lidar. É como ser desmascarado. E pra isso não é preciso um escândalo, não é preciso enfrentamento, nem sequer palavras. Silenciosamente, acontece o flagrante: “quer dizer, então, que eu te causo desconforto? … te peguei.” Talvez a ordem das coisas precise ser corrigida. A pergunta certa não é “Do que eu tenho medo?”, mas sim “Do que todos temos medo?”

Um tempo atrás olhei para o porteiro do meu prédio e disse:
“O meu namorado vai chegar daqui a pouco. Pode deixar ele subir, não precisa interfonar.”

Esse é um ato corriqueiro, mas que exigiu de mim sair do meu apartamento no sexto andar com a frase ensaiada tamanha a ruptura que isso significava. O que mais posso dizer sobre isso? Foi marcante, foi tenso, foi revelador. Tantos sentimentos em torno de um ato tão comum significa que carrego comigo todos os preconceitos dos “Outros”.  Eu me julgo exatamente como elas me julgam, e quebrar esse ciclo é um processo que pode ser lento, mas que precisa acontecer.

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No fim das contas, sou gay tanto quanto sou um homem, péssimo com videogames, amante de galinhada e tenho olhos castanhos. É algo cuja causa eu desconheço, que eu nunca solicitei e que eu não mudaria se pudesse. Leva um tempo pra entender que muitas outras pessoas também carregam algo assim. E talvez não exista uma grande lição aqui, mas muitas vezes vale muito a pena tentar um ato mais arriscado; pular do penhasco pra descobrir que lá em baixo tem água. Ao mesmo tempo, esse é um processo no qual não precisa ter pressa.  Dê-se tempo. Permita-se ser.

Vou ali tomar uma cerveja.

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