NÃO FICA COM ESSE PALHAÇO, NÃO

Eu já usei todos os aplicativos de encontros* que conheço. Tinder, Happn, Grindr, Scruff… Cite qualquer um deles, eu já tive um perfil lá. Com foto de rosto ou sem foto de rosto, revelando ou escondendo meu verdadeiro nome. Ja escrevi descrições poéticas, engraçadinhas e também curtas e direto ao ponto. Posso te contar sobre como funcionam esses apps e como se comporta a fauna de cada um deles. Exemplos? Eu tenho de sobra.

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Duas coisas me chamam muito a atenção.

A primeira delas é como alguns aplicativos são mais obscuros que outros. Enquanto no Tinder e Happn você encontra fotos de rosto, lembranças das férias, pessoas revelando suas profissões e check-in nos locais preferidos da cidade, apps como Grindr e Hornet são povoados por fotos recortadas, closes em partes do corpo, poucos rostos e ainda menos dados pessoais. Não era raro zapear no Happn ou no Tinder e ficar com a sensação de “peraí, eu já vi esse João em algum lugar” — Foi no Grindr, onde João mostra apenas o torso da mesma foto e usa o nome “J.”

Mas, por quê? Bem, coincidência ou não, os aplicativos que aqui chamo de obscuros são todos exclusivamente gays. E adivinhe onde eu mais via fotos de perfil escondendo o rosto? No Brasil, claro (sim, eu já chequei outros países). Homossexuais no gueto e brasileiros amargando uma culpa cristã. Nada de novo aí, segue o baile.

O que deveria ser um lugar seguro para exercer sua identidade e diversidade, um local para se ser livre e ter paz, está também cheio de opressão. São incontáveis perfis que apresentam sua lista negra na descrição, dizendo basicamente: “nem tente contato comigo se você for afeminado, gordo, gay assumido, frequentador do meio…”.

Meus preferidos são os que exigem sigilo — Eles querem transar, mas você precisa ser sigiloso. Fico me perguntando qual seria o contrário de sigiloso e me imagino instalando minha caixinha de som calmamente na Rua XV ou na praça Osório e berrando no microfone:

“Eu comi o João da Silva ontem! Loiro, baixinho, batata da perna direita tatuada! E ele tem namorada, hein! Abre o teu olho, Cristina Oliveira, ruiva, tatuagem no braço, que trabalha na C&A do shopping!”

Acho hilário, mas amanhã ou depois é um desses sigilosos que vai pular do carro e espancar a mim e meu namorado na calçada enquanto caminhamos de mãos dadas — Freud explica.

São sintomas do que somos, há muito a dizer.
Mas ainda nada de novo aí, segue o baile.

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Por muito tempo eu fui viciado nesses aplicativos. Isso não quer dizer que eu transava o tempo todo, muito pelo contrário. A verdade é que eu tinha uma relação de esperança com eles. Sempre fui da internet, sempre fui habitante mais do meu quarto que do mundo externo. Quando cheguei a Curitiba, no início de 2015, decidido a ter uma vida mais interessante do que a que eu vinha tendo, baixei imediatamente todos esses aplicativos pra saber quem estava perto de mim. Coloquei ali toda a minha vontade de fazer amigos, conhecer gente legal e quem sabe ter um relacionamento.

Virei um recordista para os meus padrões. Minha disposição pra sair de casa foi do constante 3 para um impressionante 10. Por alguns meses tive uma vida agitada experimentando cervejas e conhecendo apartamentos. As pessoas chegavam, desapareciam ou eu as expulsava da minha vida. Meu subconsciente sabia que havia um cardápio à disposição no meu celular, por que dar tantas chances a quem estava ali naquela hora? — Hoje chamam isso de contatinhos.

Excesso gera desperdício. Não haveria nada fora do óbvio nessa afirmação se estivéssemos falando de comida, de roupas ou de dinheiro. Mas estamos falando de pessoas, de possíveis relacionamentos. Parcerias profundas e verdadeiras que não deixamos acontecer porque descartamos alguém rápido demais, sem nos dar ao trabalho de um segundo olhar.

Com o tempo, eu checava meus aplicativos exatamente pela mesma razão que muitos de nós checamos nossas redes sociais e Whatsapp tantas vezes no dia: ansiedade e a expectativa por novas interações. Você conhece bem a sensação de recompensa ao receber uma notificação de curtida no Facebook ou no Instagram, não é? Aquele e-mail de novo inscrito no seu canal do Youtube ou uma menção no Twitter. Bem, a notificação de “match” no Tinder é ainda melhor que tudo isso porque significa que alguém gostou de você, especificamente – e como somos carentes…

Mesmo quando eu não queria encontrar alguém, o simples estar nos aplicativos havia se tornado um hábito. Não havia um porquê, era automático, meu novo jeito de procrastinar. Você já deve lido por aí que assistir a pornografia em excesso pode arruinar a vida sexual de uma pessoa. Pois bem. Talvez usar aplicativos de encontro em excesso possa arruinar sua capacidade de criar laços afetivos.

Pode estar aí uma possível explicação para a efemeridade de algumas relações hoje. Nós não temos a capacidade de nos conectar de verdade com todas as pessoas a que temos acesso. Experimente tentar conversar e manter um relacionamento com toda a população da sua cidade. É impossível. E, se é impossível, qual a função de ter todos ao alcance, compartilhando suas informações todo o tempo? Onde estamos depositando nossa energia?

Enfim, eu divago. Voltando.

O sentimento de estarmos perdendo de conhecer alguém melhor nos faz correr para o próximo contato, simplesmente porque agora podemos. Basta um clique, basta um arrastar de dedo na tela do celular. Até pode ser que isso ajude a explicar nossos relacionamentos superficiais, mas jamais poderá justificá-los. Acredito que um dia vamos aprender a dosar como usamos toda essa tecnologia. Vamos aprender que não se pode ter tudo e não se pode ter todos.

Isso nos traz à história de como conheci meu namorado.

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Não foi em um aplicativo.

Eu voltava pra casa de uma confraternização do trabalho quando decidi entrar em uma das baladas da rua Trajano Reis. Usava calça jeans, camisa pólo, óculos e cabelinho pro lado. Carregava mochila e laptop, estava tão preparado pra uma festa alternativa na Trajano quanto o seu tio de 60 anos. Eu estava sozinho e descobri que a festa era à fantasia (só melhorava). Deixei mochila e laptop no guarda-volumes, comprei uma garrafa de cerveja, peguei um copo, desci pra pista, encontrei um canto e ali fiquei. Dançando a passos curtos, cem por cento na minha, eu e minha cerveja.

Até que vi um Robin Hood enorme e loiro (ou era um Peter Pan?). Ele usava botas de lenhador e a fantasia era perfeita, assim como o conteúdo dela. Estava com os amigos e parecia estar se divertindo muito. Bom pra ele. Notei que um palhaço falava ao pé do ouvido de Robin Hood. Digo, literalmente. O moço estava fantasiado de palhaço. Não sei bem o que pensei na hora, mas me aproximei e cutuquei Robin Hood nas costas — era urgente.

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Cutuquei Robin Hood e, quando ele se virou, balancei o dedo indicador no ar.

“Não fica com esse palhaço, não”

Estamos na vida um do outro desde então.

Robin Hood é trinta vezes mais bonito que eu e eu parecia um aposentado, mas minha confiança era proporcional ao meu relaxamento. Eu estava totalmente desarmado e tranquilo. Tinha comigo apenas minha absoluta falta de expectativas e a vontade de tomar uma cerveja e ter um bom momento no meu fim de semana. Simplesmente porque sim. Não precisava ter uma razão.

Se estou dizendo que aplicativos não são bons lugares pra encontrar um amor? Não, nem por um segundo. Pra mim é simples: onde houver pessoas, possibilidades são infinitas e surpresas possíveis.

“Por que, então, eu não encontro o amor?” Eu não sei. Não tenho respostas. Até porque eu fui encontrar em uma balada, que dizem ser tão improvável quanto em aplicativos. Fato é que eu também não sei como funciona o algoritmo das pessoas. Eu mesmo ja fui parte do coro do “hoje em dia ninguém quer nada com nada”. Um dia entendi que isso é uma grande bobagem, então escolhi relaxar e ter paz. O que aprendo todos os dias é que não existe como mudar o outro. Somos capazes de, no máximo, mudar a nós mesmos, escolhendo quais angústias vamos manter conosco e quais vamos deixar pra lá. Podemos apenas mudar o nosso olhar e contar com uma mãozinha do acaso.

*aplicativos de namoro/encontros/relacionamento/pegação são apps de celular que funcionam baseados em geolocalização. Eles mostram todas as pessoas que se encaixem com seus interesses e estejam na sua região. Assim, se ambos quiserem, uma conversa pode começar.

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