O ESQUECIMENTO

Faz algum tempo me dei conta de que estou esquecendo coisas que eram muito presentes em minha vida. Não me refiro aqui ao esquecimento da memória apenas, mas ao esquecimento do coração e ao o esquecimento dos sentidos.

Tive oportunidade de morar em alguns lugares diferentes. Em uma dessas ocasiões, eu frequentava quase que diariamente uma certa biblioteca. Era lá que eu estudava, era lá que eu usava meu computador, era lá onde eu comia e até cochilava. Era lá onde eu pensava sobre como eu estava solitário naquele lugar, e olhava fixamente para as pessoas desejando sentir o que elas sentiam com suas vidas tão diferentes da minha. Desejava ser reconhecido e ser conectado. Consigo ainda sentir o cheiro do carpete, das folhas sulfite quentes nas impressoras, dos corredores de livros e da comida que as pessoas traziam de casa. Isso tudo dentro daquela biblioteca.

Ela era parte de mim e um dos meus principais cenários por quase um ano. Até que um dia, alguns anos depois, percebi que algo que era muito simples já não é assim tão simples: qual é mesmo o nome daquela biblioteca? Aquele lugar era tão conectado aos meus sentidos, ele foi tão presente, que me dá a sensação de que a qualquer segundo vou pronunciar seu nome com a naturalidade de antes. Mas isso não vai acontecer.

O mesmo acontece com a padaria onde eu comprava pão, com os blogs que eu lia e participava, com os personagens de filmes e seriados que eu adorava, com peças de roupa que eu usava todos os dias — acho muito curioso tentar lembrar como eram meus sapatos antigos. Como eram seus sapatos de 2 anos atrás? E seu telefone celular? Cada uma dessas coisas está se desfiando do tecido da minha memória sem que sejamos capazes de parar de puxar o fio. Restam flashes, pedaços aqui e ali, mas não mais que isso. Como é possível algo tão natural e presente não mais o ser?

É estranho pensar que exatamente a mesma coisa acontece com pessoas.

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Pouco a pouco deixamos de sentir a presença de quem um dia foi amigo e resta apenas a nostalgia.

Entre amigos existe um tipo de relacionamento muito especial, em parte porque não há limites claros. Enquanto em um relacionamento romântico, geralmente monogâmico, há regras baseadas em posse, interdependência e responsabilidade, o mesmo não acontece com amizades. Amigo pode ser aquela pessoa que tem uma vida independente da sua e está por perto porque vocês têm afinidades e apreciam a presença um do outro. Se acontece uma briga, cada um pode ir pra sua casa e amanhã é outro dia. Em momentos difíceis você apóia, é empático e capaz de sofrer junto, sem necessariamente absorver aquele problema, porque em seguida você voltará para a sua própria vida.

Amizade é navegar lado a lado, mas cada um no seu barco. Chega um momento em que a maré pode mudar e nos mandar por rotas diferentes — Aquela amiga com quem você dividia a cama e conversava fazendo carinho nos cabelos não tem mais o seu número de telefone. O colega com quem você passava todas as tardes já não se sabe por onde anda. Quem era prioridade, não é mais. Quem estava presente, não mais está. Antes eram só os dois, de repente há novas companhias de um dos lados. Chega como um susto o o dia em que os amigos se percebem com gostos agora tão diferentes — pra onde foi tudo que até ontem nos conectava?

Um de nós está pronto para viajar sem rumo, o outro está atolado de trabalho a ponto de se tornar um robô.
Um agora gosta de fumar maconha, o outro acha isso ridículo.
Um está com sangue no olho para abrir o próprio negócio, o outro quer viver de arte e está voltando pra casa dos pais.
Um gostaria que o outro o amasse de volta, mas o outro não ama o um.

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São tantas situações que eu e você poderíamos citar. E assim, entre um “não vou mais com você, escolhi fazer outra coisa” e um “você mudou comigo”, as pessoas se afastam. Junto da estranheza que isso causa, vem o sentimento de culpa — afinal, estamos falando de pessoas que carregam consigo seus sentimentos e egos.

Há mil coisas que eu sei e um milhão que eu não sei. Não é fácil, mesmo. Saber ler o outro em momentos de mudança, saber que passo dar quando as coisas não são como antes e não se sabe exatamente quando isso aconteceu. Talvez a solução seja apenas sintática, e tudo seria mais fácil se disséssemos: “Amigx, eu não mudei com você. Eu mudei”.

Se entendêssemos que assim é a vida — somos mutantes, não permaneceremos os mesmos. Que podemos deixar o outro ir, assistí-lo trilhar um novo caminho e, se for impossível participar, cabe a nós adaptar a nossa amizade se quisermos de coração.

O que você acha?

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2 comentários

  1. Que viagem fiz com você!! Gosto da forma tão simples e ao mesmo tempo tão real. Sinto como se estivesse vivendo cada um desses momentos. É verdadeiro, todos vivemos nossos questionamentos, dúvidas, derrotas…. vitórias. A vida é bela e proporciona cada viagem!!!!!!

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