TUDO É MUITA COISA

gif da capa: Scarllet Lane

Acordei de outro pesadelo.
Os sonhos ruins estão voltando.Scarllet Lane (ello.co barra decorkiki).gif

Acordo à noite, abro os olhos e vejo aranhas muito pretas e enormes nas paredes, caminhando rápido para o chão e então em direção à minha cama. Dou socos e chuto as cobertas. Preciso levantar, acender a luz e, por vezes, olhar em baixo da cama e no banheiro.

Dessa vez sonhei com gatos. Os vejo perambulando, nunca se deixando ser vistos. Sinto seu peso e seus passos sobre meus pés na cama. Quando acho que os vou surpreender, eles se escondem depressa só me deixando ver seu rabos — Eu não tenho gatos. Um gato não deveria estar aqui. Como ele teria conseguido entrar? Me apavoro.

Tenho sonhos ruins desde que me mudei para cá. Com o tempo, meus pesadelos diários passaram a ser semanais, e então mensais até que não os tive por muito tempo. Mas, nos últimos meses eles voltaram a me visitar diariamente. Sei de cor o gatilho: Os sonhos ruins da noite vêm com os pensamentos ruins do dia. São temporadas boas e temporadas não boas. Elas vão e elas vem.

Eu pensei que poderia me trancar aqui, viver apenas dentro de mim sem participar das causas e consequências do mundo. Sem ter de reagir a outras pessoas e sem ouvir suas vozes. Assim ficaria tudo bem. Mas não posso, não é possível. O final de semana termina e preciso sair de casa de novo. O dinheiro acaba e preciso sair de casa de novo. Sou obrigada a participar, com minha absoluta falta de carisma e total excesso de açúcares. Tomei consciência de que é impossível viver sem fazer ondas e de que não há como me esconder, então os sonhos ruins voltaram.

Abri minha toalha de banho e encontrei bem no meio dela uma mancha. Era a mesma mancha de dois dias atrás, mas bem maior. Ela estava viva, alerta, bem alimentada, e seu amarelo-claro era agora menos claro, fazendo minha toalha branca lembrar um ovo frito.

Deixei o banho para outra hora e caminhei até a cozinha. Virei o rosto para não ver a poeira eterna nos cantos e rodapés, desviei da pia, onde estava toda a louça da casa. Na geladeira, um pedaço de queijo marrom e duro e um pote de margarina — pela tampa transparente se podia ver migalhas de pão grudadas nela.

Aquela margarina me fez sentir ódio, então chorei (pouco, não muito).

Tirei a geladeira da tomada e pensei em minhas opções. Eu poderia ir ao supermercado ou pedir comida em casa gastando o triplo do meu dinheiro de mentira do cartão de crédito. Supermercado (ir, comprar, voltar, lavar a louça suja e cozinhar) versus Comida em casa e pagar para alguém ter o esforço de fazer todas essas coisas: A segunda opção venceu — até porque nunca houve duas opções.

A pizza chegou antes do que eu esperava. Tamanho grande, três sabores, e coca-cola. De dois em dois pedaços, acompanhei a pizza diminuir de 360 a 180 graus, então seu ângulo ir de obtuso a agudo até que não sobrava nada a não ser a caixa vazia, que ficou no chão ao lado da cama. Comi a pizza inteira e quase um litro de refrigerante sozinha. Incapaz de me mover, como alguém que acabou de ser operado, pensei se aquele cheiro vinha de mim.

O cheiro forte vem das minhas roupas, que secam dentro do quarto. O varal de armar também está ao lado da minha cama, assim como agora está a caixa vazia de pizza no chão à minha esquerda. À direita está a janela que dá para a rua.

Vivo no primeiro andar de um cortiço moderno. Nem prédio, nem sobrado. É um cortiço. Mais largo do que alto, com pouco mais de uma dezena de quitinetes espalhadas por dois andares. Da porta para fora fica o  pátio de cimento. Não há paredes ou corredores do lado de fora, apenas uma grade baixa de metal separando nossas portas do pátio.

Fui interrompida por batidas na janela — eram meus amigos.

Eu já estava pronta. Abri o portão para eles e num minuto minha quitinete estava cheia de pessoas que eu conhecia e não conhecia me cumprimentando com abraços e beijos. O som de risadas, da descarga do banheiro, música e tilintar de copos enchem a casa de movimento. Alguém pôs um copo na minha mão. E depois outro e mais outro e mais outro e mais outro até que estamos caminhando no frio da rua.

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Não reconheço todas as pessoas que caminham comigo. Não me lembro de ter recebido algumas delas em minha casa horas atrás.

Chegamos ao lugar. De fora se pode ouvir o rock. Abrimos a porta e entramos devagar, olhando em volta, buscando conhecidos. Eles não demoram a aparecer. A cozinha fica ali, os banheiros para lá, fumódromo daquele lado. Sigo o som buscando o rock no escuro, desviando das pessoas. Luzes vermelhas e roxas e rosas, mil portas, entradas, sacadas e salas sem mobília com paredes pichadas. Me perdi dos meus amigos há tempos, caminho sozinha e estou perto, o som agora é ensurdecedor e posso sentir a bateria no meu peito.

Encontrei a sala onde a banda toca. É dali que vem o som.
Entrei.

Vejo não mais que dez pessoas de pé e de costas para mim, imóveis. O som continua, cada vez mais alto, a bateria batendo mais forte. Caminho em direção ao fundo da sala procurando a banda. Mas algo me faz parar.

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Uma das pessoas se vira para mim e onde deveria estar seu rosto está a cara peluda de um gato. Focinho, bigodes, orelhas pontudas, os olhos puxados e fixados nos meus. Ao notar que não me movi, ele silva mostrando os dentes, arisco. Ouço a porta bater com força atrás de mim, viro-me rápido e corro. Tento fugir, mas estou trancada. A bateria batendo mais forte e mais rápido em meu peito. Com as costas coladas à porta, vejo as criaturas se virarem uma a uma em minha direção. Uma dezena de gatos-humanos agora me encaram. Não me movo até tremer e piscar com força diante do silvo arisco de todos eles ao mesmo tempo ao som do rock.

A bateria esmurra meu peito, respiro fundo e dou dois passos em direção às criaturas. Os gatos hesitam. Mais um passo meu e todos começam a se curvar e ficar de cócoras. Outro passo curto e eles saem de formação, correndo nas quatro patas em direção às extremidades da sala, fugindo de mim e revelando à que eles assistiam.

Meu coração bate quase mais alto que o rock — os gatos saíram do caminho e agora vejo o ninho de aranhas gigantes pulsando amontoadas no canto da sala.

As aranhas me descobrem. Elas tem o tamanho de chapéus e esticam suas pernas, espreguiçando-se devagar. São pretas e caminham para mim. Mais aranhas aparecem nas paredes, descendo ao chão e se juntando às outras para me pegar. A cada passo delas o ar na sala diminui. Grito com toda a força que tenho, até minha garganta doer e tremer, mas o som não sai. Inspiro, puxo todo o ar que posso, mas não existe mais ar para inspirar. Minhas pernas não se movem apesar das ordens do meu cérebro. Estou paralisada, o rock continua. Os gatos assistem, imóveis, às aranhas me consumirem.

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Acordei de outro pesadelo.
Os sonhos ruins estão voltando.

Coração na boca, respiração ofegante, rosto molhado por lágrimas. Preciso de um tempo sentada na cama. Não estou em uma casa ao som do rock, não há gatos e nem aranhas. Gostaria de voltar a dormir, mas tenho medo.

Nada mudou. Minha casa segue refletindo minha cabeça — Do chão ao teto, tudo está mofando com as chuvas e o frio. Visto as mesmas roupas há três dias e não há amigos batendo na minha janela, estou sozinha como nunca.

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Leite
Suco
Lasanha congelada
Macarrão instantâneo
Pipoca de microondas

Agarro um panetone e caminho até o caixa.

“Tudo bem, moça?”, a atendente pergunta.
“Tudo é muita coisa”, respondo.


O mês é junho e o panetone é de chocolate.

Vou até a mesa da cozinha e abro os envelopes — cartão de crédito, condomínio, conta de luz. Fico parada, olhando para aqueles números sem realmente processá-los. Não sei quanto tempo se passa. Estou exausta, choro de cansaço e pena, como se me assistisse de fora. Seco as lágrimas devagar e começo a abrir minhas gavetas.

Abro o livro.


“A Meditação Mais Rápida do Mundo consiste em fechar os olhos, concentrar-se e chamar pelo seu próprio nome, dizendo ‘Oi’. É um exercício de recuperação, de retorno e assentamento para quando se está perdido”

Assim fiz. Fechei os olhos, olhei para o escuro e disse
“Mabel, oi”

Nada.

“Oi, Mabel”.

Silêncio.

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