UM QUASE FETICHE

(sexta-feira, oito horas da noite) Estou em casa há mais de uma hora. Banho tomado, cabeça totalmente desligada do trabalho. Agora preparo meu jantar sem pressa. Não estou tão cansado, posso assistir a um filme, escrever o roteiro do próximo video ou mesmo rascunhar uma edição da newsletter que você lê. Pegar uma balada depois, talvez? Ir pro bar…?

/corta pra realidade

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(sexta-feira, oito horas da noite) Ainda estou no escritório. Metade do andar está vazio e no escuro. As luzes são programadas para se apagarem automaticamente de meia em meia hora a partir das oito da noite. A cada vez que isso acontecer, um de nós terá de se levantar e ir até o interruptor acendê-las novamente; este é o sinal de que já estamos ali há muito mais tempo do que deveríamos. Onze, doze, treze horas de trabalho sem contar o tempo de trajeto até a empresa.

Não tenho certeza de que horas chegarei em casa, mas estou esgotado. Depois do banho comerei qualquer coisa e irei pra cama procrastinar nas redes sociais até pegar no sono. Está fora de questão qualquer atividade que exija um cérebro; Escrever, sair, cozinhar, pensar, tudo isso terá que ficar pra amanhã. Algumas das minhas sextas-feiras e de muitas pessoas que conheço tem sido assim. Não muito diferente das segundas-feiras, terças, quartas e quintas.

“Eu tô aqui porque não estudei, e vocês?”, um colega solta, depois do que parecem ter sido anos de silêncio e bufadas. Dou gargalhadas toda vez que escuto essa, acho genial. Parte da graça dessa piada está no fato de que todos ali estudamos. Estudamos coisas diferentes uns dos outros, somos uns mais especializados, outros menos. Mas certamente todos estudamos.

A minha história se parece com a de muitas pessoas. Vim de uma família que, com alguns sacrifícios, pôde investir nos meus estudos. Resultado: sou um homem branco, ensino superior completo, com experiência internacional e empregado em 2017 — com essa tonelada de privilégios*, sou o fetiche da classe média. Bem, não exatamente. Deus foi bom comigo e me fez gay pra eu não ser um tédio completo.

Sou, então, um quase fetiche da classe média.

Até aí, nenhuma surpresa. 10 anos atrás eu já era capaz de enxergar onde estaria hoje. Apertando os olhos em direção ao horizonte, lá longe estava eu. Uma década mais velho, uma arroba mais gordo. Acenando e berrando “Vem sem pressa! Não tem nada demais aqui!”

Vim empurrado a cada passo. Quando estava na escola, eu sabia qual seria o próximo passo. Durante a faculdade, eu também sabia qual seria o próximo passo. Agora, que saí da faculdade, o próximo passo só pode ser trabalhar e ir improvisando, certo? Mas minhas origens gritam que eu deveria querer “crescer” profissionalmente. Subir, querer mais, estar ocupadíssimo trabalhando nesse plano.

Eis que dia acordo com o barulho de uma pergunta despretensiosa: “… mas por quê?”.
Meu cérebro não é capaz de me dar uma resposta imediatamente. Passam-se 5 minutos e a resposta ainda não se construiu. Passam-se meses: nada. O que era uma pergunta despretensiosa tornou-se uma mala de tijolos que você é obrigado a carregar. Caímos no vórtice da nossa própria crise, amigx, sinto muito.

Ora, como saberíamos a resposta pra essa pergunta se até hoje nunca foi preciso respondê-la?

Não sei o propósito exato de tudo o que aconteceu até hoje, mas, pela primeira vez, então, eu posso decidir como será daqui em diante — se você tem seus vinte e poucos anos como eu, e se temos uma história parecida, esse momento é a primeira vez em que experimentamos a liberdade de poder escolher o que fazer. Quer seguir na inércia e se aposentar no cargo em que está? Você pode. Quer quebrar tudo e mudar completamente a história da sua vida? Você pode também. De um jeito ou de outro vai haver consequências, mas hoje temos alguma autonomia.

Essa é a beleza de caminhar com as próprias pernas. Não conhecemos os porquês, mas podemos escolher o caminho na tentativa de descobrir. Acho que nos cobramos demais para termos uma meta específica. “OK, e agora? Qual o plano?” — já te ocorreu que talvez você tenha atingido o seu objetivo e esteja vivendo o seu plano nesse exato momento? Não precisamos de um plano imediatamente (desde que as contas estejam pagas).

Vá para sua próxima aula tranqilx.
Apareça pra mais um dia de trabalho tranquilx.
Viva mais um dia sem a urgência de mudar tudo pra ontem.
Ou mude tudo agora mesmo se você teve a sua gota d’água.
Ta entendendo?

Certamente você, que está lendo, é diferente de mim. Podemos ter trajetórias parecidas, mas é impossível que sejamos iguais. Aqui eu falo aqui por mim, baseado na minha vivência, com um texto e um ponto de vista que transbordam a minha história e os privilégios que tenho nessa vida. Privilégios estes dos quais sou totalmente consciente e pelos quais sou grato. E você? Qual é a sua história? Qual é o seu ponto de vista? Responda este e-mail e me conte.

Boa semana, e calma. Ta tudo bem.

*minha definição de privilégio é “vantagem não requisitada”.

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