RUFUS, O LENHADOR

Quando chegou à nossa casa, Rufus era tão pequeno que saltava as folhas de grama como se elas fossem cercas.

O ano era 2011. Rufus nos fora presenteado pelo meu pai na tentativa de consolar meu irmão mais novo diante da morte de Laica, uma cachorrinha que ficou conosco por não mais que duas semanas. Laica era uma labrador filhote, cor de creme, engraçada, gordinha, caríssima. Rufus era um vira-lata.

ello-xhdpi-454ad97fJohn Orion Young

Ao ver aquele bichinho tão inofensivo e minúsculo, convenci todos da família a aceitarem um nome improvável — Rufus, copiado do grande e forte personagem “Rufus, o lenhador”, da Corrida Maluca. Que erro.

A cada dia ele construía uma reputação que, bom, digamos que é bem difícil defendê-lo. Foram muitos calcanhares atacados e incontáveis as vezes em que fui mordido ao tentar tirá-lo da minha cama à noite. Digo, da cama dele. Os momentos de banho só não eram mais difíceis do que secá-lo depois com o secador de cabelos, que Rufus atacava como se o secador fosse um monstro. Dom Quixote e seu moinho de vento — Isso quando eu conseguia tirá-lo de debaixo da cama para o banho, é claro. Entre uma coisa e outra, mais mordidas.

Quando eu tinha comida, porém, ele se transformava. Ficava manso, trotava devagar até meus pés e chorava baixinho me olhando. Rufus era cínico.

Não sei exatamente como isso foi acontecer, mas certa vez encontrei uma lagartixa morta dentro do nosso congelador. Ela estava dura, branca de gelo e perfeitamente conservada. Tive uma ideia! (“E se…”). Transferi a lagartixa para a bancada da cozinha, acendi um fósforo e comecei a movê-lo no ar ao longo do comprimento da minha amiga congelada. Aos poucos a camada de gelo derreteu, revelando as verdadeiras cores da lagartixa. Acendi mais um fósforo e segui aquecendo-a, aproximando a chama de seu corpinho pouco a pouco. Imagine o tamanho da minha surpresa ao ver a barriga da lagartixa inflar e esvaziar! Ela estava viva, viva!

Ela continuava respirando, agora mexendo ora uma pata, ora a cabeça. Coloquei-a de bruços e segui o procedimento até ela escapolir, fugindo do calor.  Eu devia tê-la deixado quieta e dado a ela tempo de se recuperar tranquilamente, mas o que fiz foi tentar levá-la até a parede. Não sei qual lógica me fez pensar que essa seria a melhor opção naquela hora, mas nada até ali estava fazendo muito sentido. Fato é que ela não aderiu à parede. Em vez disso, a lagartixa caiu no chão e correu para debaixo do sofá. Eu ainda estava chocado com meu feito e muito determinado a libertá-la por completo, o que quer que isso signifique. Quando levantei o sofá para afugentar a lagartixa para a liberdade (?), não me passou pela cabeça que Rufus estaria por perto.

Mas ele estava.

Rufus aproximou-se muito tranquilamente e agora estava bem debaixo do sofá suspenso por mim. Eu estava sem ação. Não podia largar o sofá sem antes espantar o cachorro dali, mas ele insistia em ignorar meus gritos e batidas de pé pois estava muito entretido com outra coisa — o objeto do meu milagre: a lagartixa. De uma só bocada, Rufus a engoliu, me deixando boquiaberto segurando o sofá no ar.

crimeScene_fb_600Justyna Stasik

Rufus não era exatamente agradável e eu sabia disso. Mas, de todas as pessoas na casa, ele me escolheu. E eu escolhi Rufus. Havia muito afeto ali; um tough love, um amor de mula. Tenho que admitir que nossa relação era muitas vezes unilateral; eu me dedicava a ele mais do que ele a mim — me preocupava, brigava por ele e garantia que ele teria certos cuidados que um cachorro normalmente não teria em nossa casa, enquanto ele fazia o que fazia. Mas ele tinha seu jeito de demonstrar carinho também.

Eu estudava em outra cidade na época, e a forma com que Rufus me recepcionava é das demonstrações mais calorosas que recebi na vida. Nossa casa fica nos fundos de um enorme terreno. Do portão eu assobiava e ele logo aparecia lá longe. Parado, à espreita. Eu então começava a caminhar normalmente em sua direção. Conforme eu me aproximava, Rufus se encolhia e começava a tremer com as orelhinhas baixas. Quanto mais perto eu chegava, mais ele tremia. Então começava a chorar e bater as patinhas sem sair do lugar. Quando eu finalmente chegava até ele, ele girava como um pião, pulava, chorava alto e fazia xixi para todos os lados. Era puro amor e saudade. Isso me marcou muito.

Na maior parte do tempo, entretanto, ele seguia se comportando como um velho baixinho, rabugento e ansioso. Reclamando com bufadas, me mordendo e evitando carinhos.

Um dia, Rufus estava quieto demais, retirado demais. A certa altura do dia, ele convulsionou. Não há muito o que explicar. É feio, é triste de assistir; Ouvi um barulho e, quando me virei, ele estava deitado de lado, contorcido e nitidamente sem qualquer controle de seu corpo. Uma ou duas patas esticadas e as outras retraídas. A boca aberta, mas nenhum som saía. Havia vida em seus olhos vidrados, como se pedisse que alguém o ajudasse e o tirasse daquele sofrimento. Por um tempo que pareciam anos, Rufus ficava no chão, dobrado e sentindo muita dor. O que se seguia era tão feio quanto; um cachorrinho exausto, machucado e deprimido.

As convulsões não pararam, até que ele tomou sua primeira injeção de Diazepam, além de gotas diárias de Gardenal. Suas patinhas estavam cada vez mais tortas, assim como seu corpo, e Rufus agora era um cãozinho triste e sonolento. Ele não foi mais o mesmo e isso ainda me machuca.

Com sua doença, acho que eu adoeci um pouco também. Sempre alerta, preocupado e atento a ele. Isso não impedia que ele continuasse fugindo de casa e comprando briga com cachorros maiores. A impressão é de que, por mais que tentasse, ele não conseguia parar, insistia em um estilo de vida que não era condizente com seu tamanho e muito menos com sua saúde.

Certa noite, ele sumiu por horas. Comecei a ficar desesperado. Já era muito tarde e eu não fazia ideia de onde ele estaria, ou mesmo se estaria vivo àquela altura. Já havia percorrido toda a casa, o quintal e ruas próximas, e nada do Rufus. Pensei no pior.

Toda a cidade dormia quando o encontrei, por acaso, encolhido no canto do banheiro, cabisbaixo e vulnerável, sem qualquer traço do Rufus que cresceu em minha casa. Ele estava molhado e estranhei que sequer rosnou quando me aproximei para secá-lo — não estava chovendo naquele dia, o que molhava Rufus era seu sangue. Ele tinha um corte profundo no pescoço. Foram horas de angústia e medo, meus e dele, sozinhos no completo silêncio da madrugada tentando salvar um ao outro.

Sketch_abordageCecile Gariepy

Quando Rufus morreu, nós não estávamos em casa. Sequer estávamos no Paraná. Lembro-me do efeito imediato que a notícia causou em meu irmão — Apenas isso renderia outro texto, que certamente não estou preparado para tentar escrever. A notícia chegou a nós por telefone enquanto estávamos na estrada voltando de Minas Gerais.

Todo o caso ainda é obscuro para mim — ele teria sido atropelado na rua de casa. Não sei quem o atropelou, não sei quem o encontrou, não sei se as pessoas tiveram cuidado, não sei para onde foi seu corpinho. Nunca perguntei. Chegamos em casa e Rufus simplesmente não estava lá, como se nunca tivesse estado. A rotina não foi alterada por sua partida, não processamos a sua morte. Isso foi estranho e muito triste, apenas reforçando a minha sensação de que Rufus não era feliz. De que ele não conseguia ser um cãozinho tranquilo embora tivesse tudo para ser.

Eu não consegui salvar Rufus.

Do início ao fim tão miúdo, nasceu com a ingrata missão de suprir a expectativa de toda uma familia em torno de uma labrador envolta em promessas — Laica foi sonhada. Podíamos vê-la correndo em câmera lenta como num filme, chacoalhando-se depois de um banho que daríamos juntos, em família, gargalhando. Aquela sapeca. Rufus era torto, epilético, agressivo e interesseiro. O cachorro mais mal caráter que conheci. Mas ele não fazia por mal, ele queria ser amado também. E foi.

A lembrança de Rufus me comove muito. Tenho certeza de que hoje ele está no céu junto de deus e de outros animaizinhos bons, pois ele era inocente e era do bem.

Descanse em paz, Rufinhos.

rufus 01Rufus e sua bolinha – Fevereiro de 2012

rufus 02Rufus logo após injeção de Diazepam (de olhos fechados) – Janeiro de 2012

286792_243724665658173_5329420_oRufus – Agosto de 2011

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