O QUARTINHO DA BAGUNÇA

Se o feed do meu Facebook fosse um canal de televisão, esse canal teria uma grade fixa com os seguintes programas em loop ad aeternum: Game of Thrones, Donald Trump, Michel Temer e Drag Queens. Todos estes programas, fora Temer, seriam transmitidos em inglês, o que, a princípio, não seria exatamente um problema.

O que acontece, e isso sim é um problema, é que eu não tenho vontade de assistir à programação desse canal em particular.

Tenho que admitir que me perdi na curadoria do meu Facebook. Se pudesse, eu apertaria reset, cancelaria o sinal dessa emissora de TV e começaria tudo do zero pra ver se assim acerto.

Até onde sei, isso não é possível, mas nem tudo está perdido. Vez ou outra, entre uma teoria de fãs de Game of Thrones e um video de Rupaul’s Drag Race, passa pela minha timeline algo que desperta o meu interesse (de verdade). Porém, 90% das vezes em que isso acontece, eu tenho exatamente a mesma ação: salvo aquele link pra “ler depois”.

Não preciso dizer que nunca mais volto a ele, preciso?

Isso nunca me incomodou, mas há alguns meses começou a incomodar. Recentemente, todas as vezes em que entrei no Facebook e salvei um link pra depois, senti como se estivesse comendo um bombom escondido durante a dieta, fumando um cigarro depois de uma semana sem fumar ou varrendo a sujeira pra debaixo do tapete — eu não faço dieta, não fumo e não tenho um tapete; um exemplo com roer unhas seria mais próximo da minha realidade, mas que graça teria?

Minha lista de posts salvos acabou despertando em mim um sentimento de vingança, um querer acertar as contas com estes flagrantes da minha falta de foco. Então a cada vez que acesso o Facebook, eu juro que um dia vou abrir aquela pasta, clicar em cada artigo e ler um por um sem misericórdia.

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12771700_10154050422845337_1524933850746536113_oSaul Leiter

Hoje não é esse dia.

Ainda assim, estou curioso. Pela primeira vez vou destrancar esse quartinho da bagunça para ver tudo o que enfiei lá dentro por sabe deus quantos anos.

Comecemos pelos números: desde de 2014 (!) são exatos 187 itens salvos, sendo 148 links para artigos externos, 24 videos e 13 fotos (as imagens que uso para ilustrar esse texto são todas de lá)

Tem coisas realmente interessantes nessa lista. Entre videos sobre mercado de trabalho e artigos falando de política, arte, morar no exterior e o politicamente correto, o que predomina são tópicos sobre o comportamento humano. Destaco alguns poucos:

Psicologia e comportamento:
“As armadilhas de se achar especial” (Papo de Homem)
“Até onde você vai para ser aceito” (Canal Liliane Prata, no Youtube)
“Actually, let’s not be in the moment” (The New York Times)
“Você lembra quando foi a última vez que ficou mais de 24 horas 100% offline?” (Coworking Brasil)

Política:
“Who are all these Trump Supporters?” (The New Yorker)
“Afinal, por que Aécio e Temer não foram condenados?” (Huffpost Brasil)
“MEC corta homofobia da lista de preconceitos que devem ser combatidos na educação (The Intercept Brasil)”

Aprender algo:
“Vender Cursos Online: Como ganhar dinheiro com conteúdo” (SambaTech)
“5 Infographics to Teach You How to Easily Make Infographics in PowerPoint” (Hubspot)
“Pad Thai Recipe” (The New York Times)

Tudo indica que tenho ótimas intenções intelectuais e humanas e que sou potencialmente inteligentíssimo.

Fato é que são três anos de links acumulados. Isso é muito tempo, é muito conteúdo que ficou só no “quase”. O que eu fiz no Facebook todo esse tempo?!

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1488187_10152158232225337_1341544580_npinturas (!) de Gerhard Richter

Estou refazendo o caminho que percorri para entender onde me tornei um acumulador durante esses anos e, sinceramente, agora me sinto ridículo. Olhando de fora, o que vejo sou eu percorrendo eternamente o feed do Facebook sem saber o que procuro, esbarrando em algo legal e clicando no “ler depois”. Qual o sentido nisso? Se eu não paro para ler aquele artigo ou assistir àquele video, se estou online no Facebook sem a disposição para realmente consumir o conteúdo que me interessa, o que é que eu estou fazendo ali afinal?! *

Apesar de não ter lido nenhum desses quase 190 artigos, percebo um padrão quando os vejo juntos: todos eles tratam de assuntos “importantes” que eu não domino, mas inconscientemente acho que deveria dominar. Eu não falo sobre nenhum desses tópicos no meu dia-a-dia e meu cérebro me manda sinais que dizem

“Veja esse artigo! Você deveria ser uma pessoa que se interessa por isso porque o tipo de pessoa que você deveria querer ser saberia conversar sobre esse assunto então é melhor você ler sobre isso imediatamente ou vai se tornar alguém que você não deveria se tornar. Estou avisando, estou avisando, estou avisando. Leia, leia, leia!” — desculpem, meu cérebro é ansioso.

14563531_10154637117850337_282223083852742724_nWassily Kandinsky – Sky Blue , Março 1940

Sabemos como essa história termina. O cérebro que quer me fazer ser alguém “melhor” é o mesmo cérebro que se boicota e desprioriza essas leituras importantes, focando em outras atividades relacionadas a ansiedade e procrastinação. Estas eu prefiro não listar.

Isso é sintomático. Exatamente o mesmo efeito acontece com comida, por exemplo, quando não sei me comportar em um buffet livre. Meu cérebro grita que eu preciso comer tudo o que eles oferecem, então transbordo meu prato com uma quantidade de comida de que não preciso. Acontece que, diferente da informação, a comida eu consigo absorver, ficando no fim das contas não com um excesso de links, mas com excesso de… corpo.

Eu gostaria de ter uma bela conclusão pra esse texto ou uma lição para compartilhar. Desculpem, eu não tenho. Só o que trago é uma série de autoacusações que talvez despertem a sua curiosidade em dar uma espiada nos seus próprios links salvos.

Quem o seu cérebro acha que você deveria ser? Você tem links salvos criando poeira ou algo parecido com isso? Você pode me responder contando se quiser.

Enquanto isso, este artigo aqui talvez eu devesse realmente ler: “Fuja da câmara de eco: Como consertar o feed do seu Facebook” (Mashable).

* Seria o Facebook desenhado justamente para nos fazer matar tempo? A resposta pra essa pergunta é sim. Toquei nesse assunto com esse video (mas o foco aqui é um pouco diferente). Inclusive, exibir nos títulos dos textos do AC! o tempo que você vai levar para lê-los tem tudo a ver com isso. Se assistir ao video, me conte o que pensa sobre. c:


carta enviada originalmente em 27/08/2017. Assine para receber com exclusividade semanalmente

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