PENSAMENTOS CURTOS E LONGAS BOBAGENS

// Sobre morte (de novo): Na carta número 13 eu falo sobre a como a morte é um tema abstrato para mim. Provavelmente por eu nunca ter perdido alguém que seja muito próximo, ou mesmo pela falta de conexão com minha família de modo geral, já que meus pais e alguns tios migraram de Minas Gerais para o Paraná há muitos anos. Eu nasci aqui e, portanto, cresci distante de figuras fortes como avós e grande parte dos tios. Lá, somos sempre os visitantes, e a nós ficam reservados os agrados, o fazer sala.

Por isso, é muito interessante viajar a Minas e, alguns dias visita adentro, notar as pessoas deixando de lado a cerimônia e ocupando seus lugares na casa que não deixou de ser deles. Os anfitriões já não se dedicam tanto a cozinhar em dias de semana, já que precisam trabalhar, por exemplo, minha mãe ajuda na faxina e, de modo geral, já é possível assistir a algumas conversas mais acaloradas, semi discussões. Meu irmão e eu achamos hilário.

A novidade é que há um fenômeno começando e coisas como esta tem sido cada vez mais frequentes:

Screenshot_20180318-203223perceba minha total falta de tato

Sei lá, acho que estamos entrando nessa fase nas famílias” — oi?! Isso foi mesmo o melhor que eu consegui pensar?

Melhor começarmos a comer melhor, fazer exercícios físicos… rs” – WTF?

Pessoas de idade adoecendo e a consequente perspectiva da morte segue tendo pra mim um aspecto quase irreal com o qual não consigo me identificar totalmente. Me falta essa profundidade. Acabo reagindo assim, meio que naturalmente demais.

No fim das contas, o que dizer? É 2018, eu estou mais perto dos trinta anos que dos vinte. Meus parentes tem sessenta, oitenta, noventa anos de idade! Eu ainda tenho os quatro avós, o que é muito legal (e seria ainda mais se eu os tivesse por perto). Talvez eu precise começar a me acostumar com a ideia de que as pessoas vão partir mais cedo ou mais tarde. Nada mais natural.

Percebo que eu tento resgatar esse assunto semana após semana. Fiquei insatisfeito com o texto na carta 13 e estou insatisfeito com este. É aquilo que eu já disse, me falta profundidade, não tenho repertório. Mas esse tema continua se mostrando e ficando na minha cabeça.

Por ora, fique com um GIF de Frida, que tem preocupações maiores na cabeça, mas ainda encontra tempo pra julgar minha falta de tato enquanto uma menina de moletom rosa dança no canto inferior esquerdo:

giphy-downsized-large2

 

// Sobre olhares: Acredito que exista uma coisa que pode ser chamado de o olhar do escritor. Um olhar que não entende a vida apenas como acontecimentos ao acaso, mas que os examina, investiga, que remove camadas pra espiar o que deve haver por detrás de cada fato. Acima de tudo, um olhar que revisita. Que se dispõe a reservar um pensamento pra depois pois dali pode sair algo além do óbvio.

Pessoas que não escrevem podem perfeitamente ser dotadas desse olhar. Gente que, ao invés de escrever, cria músicas, faz bolos, dá aulas de bambolê, se maquia, lê, desenha, cuida de plantas, mantém a casa limpa e organizada. Em comum, todos os que são dotados desse olhar realizam suas atividades com prazer e nobreza. Como se as soluções para o mundo dependessem daquilo — nosso lado cético sabe bem que isso não é verdade, mas resolvendo as questões do nosso próprio mundo não estaríamos resolvendo as do mundo todo?

Pela minha experiência, essa nobreza é conferida por uma espécie de ingenuidade que acompanha este olhar. No meu caso, por exemplo. Não apenas eu procuro por “algo” por detrás das pequenezas do mundo, mas fico muito feliz e me sinto importante quando escrevo sobre elas, e principalmente quando as conecto dentro de um texto maior, que não existiria se eu não tivesse reservado aqueles pequenos pensamentos para revisitá-los mais tarde. E isso não tem a ver com inspiração, pois esta vai e vem e não sei nem se existe. Tem mais a ver, na minha opinião, com o ser estrangeiro no mundo. É o tal do ser sonhador, avoado. Vocês sentem algo parecido?

Por coincidência, passei esse fim de semana lendo e assistindo a videos sobre escrita, criatividade, auto-conhecimento em geral e vi várias coisas da escritora Noemi Jaffe. Ela fala exatamente sobre isso. Sobre como escritores tem esse olhar mais demorado sobre as coisas.

Inclusive, assisti a uma mini oficina de escrita criativa da mesma Noemi Jaffe, em que ela fala sobre alguns elementos básicos da boa escrita. Nada muito restritivo, pelo contrário, mas que me fez repensar a maneira como eu venho tentando escrever. Especialmente 1.eu reescrevo pouco os meus textos, dou pouco tempo para os escritos maturarem pois faço a newsletter sempre em cima da hora e 2. eu presto muito pouca atenção à questões técnicas do meu texto. Por falta de conhecimento, mesmo. Some-se a isso o fato de que eu tenho lido muito, muito… pouco. Pouquíssimo. Resumindo, muita coisa errada.

Portanto, vou procurar me organizar melhor, aplicar algumas lições que aprendi e quem sabe na semana que vem eu mostre aqui um conto de ficção em que estou trabalhando. Um texto no estilo “Tudo é muita coisa“, espero que melhor. Não é uma promessa, mas acho bastante necessário e que faz sentido tê-lo pronto pra edição #15. Me desejem sorte e disciplina.

 


Texto enviado (junto de outros) originalmente na newsletter Acelera Cometa! — para assinar, é só preencher o formulário na barra lateral.

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