CANOS DE COBRE

O que você faz às sextas-feiras depois do trabalho?

Duas semanas atrás, às onze da noite de sexta-feira, eu me preparava para lavar meu banheiro. Vassoura em uma mão, balde noutra, eu estava pronto para começar. A próxima coisa de que lembro é de estar no meio da festa de aniversário da Isabela (a Isa).

Nenhum outro convidado da festa interagiu comigo e, apesar das minhas tentativas, não consegui ouvir sobre o que conversavam. Mesmo assim, posso afirmar com certeza absoluta que todos ali estudam na Federal do Paraná. E não apenas isso, todos eles também frequentam jogos universitários, desses em que várias faculdades competem em modalidades esportivas que vão de futebol a truco — eventos como esses acontecem todos os anos, geralmente em uma cidade praiana, duram vários dias e os ingressos custam uma fortuna. As pessoas ganham abadás para shows open bar de um artista diferente por noite e, em geral, os atletas competem bêbados.

Isso ficou óbvio quando os amigos da Isa começaram a cantar o grito-de-guerra sobre como a Federal é a melhor universidade do Estado, nenhuma das outras tem tradição e são todas uma merda. Eles berravam também sobre “xerecas cheirosas”, gritavam rimas para deixar claro que (ora!) “tem que ter boquete” e que “pode ser feia, pode ser gorda, só não pode ser feia e gorda”.

Taí. Galera da Atlética.

Era a quarta ou quinta vez que eles cantavam “parabéns pra você” e eu não tinha mais certeza de quantos eram os aniversariantes da festa. Acho que quanto mais eles bebiam, antes terminava o parabéns:

Parabéns pra você
Nessa data querida
Muitas felicidades
Muitos anos de vida
Isabela! Isabela! Isabela!

Parabéns pra você
Nessa data querida
Muitas felicida/aêêê!

Parabéns pra você
Nessa data queri/aêêêêê!!!

Até inovarem com um

Parabéns! Parabéns!
Saúde, felicidade.
Que tu colhas sempre, todo dia
paz e alegria na lavoura da amizade ” — seriam gaúchos?

canibal
canibal vegetariano
lena
lena muniz
joakim

Eu não estava de verdade na festa (deu pra perceber?), mas a festa estava dentro do meu apartamento. Fui vítima de uma festa-parasita, dessas que estão muito, muito perto e começam absolutamente do nada. Eu não sabia de qual dos prédios vizinhos vinha a algazarra, o som entrava com a mesma intensidade por todas as minhas janelas. Demorei a entender que ela acontecia abaixo de mim, no salão do meu prédio, me atingindo como um soco no queixo, tou!

Essa foi a primeira vez em que ouvi barulho aqui desde que me mudei, há pouco mais de dois meses. O que me pegou de surpresa, considerando que vim do centro da cidade, com tudo de bom e de ruim que há no centro de uma capital, para este bairro, que mais parece uma sala de espera de consultório médico.

A festa da Isa não me incomodava. Eu estava concentrado em lavar meu banheiro, que estava uma selva; lama no chão, pegadas de botas e pedaços de gesso e cimento por toda parte. Só não estava pior que o quarto, que tinha um rasgo na parede indo do chão ao teto, expondo um encanamento de cobre brilhante, novinho, recém instalado. Limpar essa bagunça seria meu programa de sexta-feira à noite. O que mais eu poderia querer? E seguia a festa da Isabela…

Dois dias antes, quarta-feira às dez e meia da manhã, eu estava no trabalho quando meu celular tocou — meu celular nunca toca. Quando toca, é engano ou bucha. Atendi.

“Alô, Lucas?”, não era engano.

Quem ligava era Valdinei, meu vizinho de baixo. O apartamento de Valdinei estava alagado e tudo indicava que a água vinha do meu apartamento. Será que eu conseguiria dar um pulo no prédio e fechar o meu registro? É mesmo urgente, Valdinei? A água está vertendo? Ela estava. A água vertia pelo forro, escorrendo por toda a parede. Pobre Valdinei. Fui.

Pelo broche espetado junto 107 na porta, Valdinei é um estudante de Medicina, mas isso não pôde prepará-lo para um encanamento em estado terminal. (Será que ele estava na festa da Isabela?); Registro fechado, seguradoras acionadas, encanadores fizeram suas visitas e pude finalmente voltar ao trabalho.

No fim do mesmo dia recebi nova ligação. Dessa vez era a síndica para informar que o meu registro não estava contendo o vazamento, que a água estava descendo até o estacionamento e o apartamento de Valdinei estava um caos.

Ficamos dois dias sem água enquanto os encanadores faziam todo o conserto. Teríamos canos novos, de cobre, muito mais resistentes à pressão, o que me deixou também com a parede aberta e um cômodo coberto por lona e pó.

Decidi que não lidaria com isso até que tivesse tempo de sobra. Tudo o que eu precisaria fazer era dormir na sala até quinta-feira, quando seria feriado de Páscoa e eu viajaria para a praia com Robin Hood, meu namorado.

zadra
ricardo zadra

Robin e eu estávamos animados, felizes por podermos bancar um passeio só nosso, e nos sentindo descolados. O plano era não fazer planos; acordamos na sexta-feira do feriado, tomamos café da manhã e fomos para a rodoviária. O ônibus já estava lotado? Sem problema! Compramos passagens para o próximo. Fizemos hora, passeamos pelo Mercado Municipal, visitamos lojas bonitas, comemos coisas gostosas e ele me ajudou a praticar espanhol conversando e cantando comigo.

Chegamos lá perto da hora do almoço, escolhemos onde ficaríamos e fomos improvisando daí. A única regra era “praia todos os dias”.

O clima estava diferente; nublado e chovendo no fim da tarde. A cidade mais vazia do que no Ano Novo, quando também estivemos lá. Mesmo com o feriado prolongado, aquele parecia ser mais ou menos o estado normal do lugar, com a praia ocupada pelos locais e muito menos movimento. Nós também não estávamos bêbados como estivemos pela maior parte do tempo no Ano Novo. Havia, agora, menos festa, menos ruído, menos pressa. Mais calçada e mais areia para caminharmos. Mais espaço para percebermos que éramos observados pelas pessoas — dois caras de fora circulando de mãos dadas em um dia normal na cidade pequena. Usando óculos escuros diferentes e bermudas coloridas. Os abraços dentro do mar, a maneira com que nos movíamos, o jeito de sorrir e brincar um com o outro.

Robin e eu podíamos sentir os olhos nos seguindo. E eu sabia que ele sabia, mas não falávamos nada. Ao longo de três dias, foram assobios, risadas, buzinas e gritos para nós. Eu mantinha a cabeça erguida e o olhar fixo à frente. Não sei se ele fazia o mesmo, pois eu não queria olhá-lo. Para não tornar a situação real, para não ter de ver a tristeza inocente de Robin Hood.

Ficamos, então, em silêncio, guardando aquilo para nós mesmos, esperando a oportunidade para um comentário positivo sobre qualquer outra coisa — “como o céu está bonito”, “olha aquela escultura de peixe, que engraçada”, “lembra que no Ano Novo tinha vários food trucks nessa esquina?”.

Nossas mãos seguiam firmemente encaixadas uma à outra, mas por dentro estávamos inquietos, com pensamentos de raiva e de tristeza se chocando contra as paredes do nosso cérebro e estômago — quando silenciados e deixados no escuro por muito tempo, raiva e tristeza se misturam, fermentam e dão origem ao ódio, uma substância pesada e de um ranço que não sai facilmente.

E se Robin Hood e eu fôssemos mutantes poderosos dotados de olhos de raio laser? E se não pudéssemos controlar esse raio destruidor em nossos momentos de fúria? O que seria das pessoas naquela praia, que fim teriam os prédios na orla?

E se eu tivesse uma arma de fogo?

Foi aí, então, que eu entendi.
Aos vinte e sete anos de idade, finalmente eu entendi.

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th2
THSOUSA

Entendi como a opressão funciona em mim.

Ela me faz sentir intruso. Ela me maltrata, me envelhece, confunde meus pensamentos. A opressão contamina o meu humor e me deixa em estado de alerta. Me torna arisco, pronto para o ataque, esperando pelo momento em que estarei tão certo, com os dois pés plantados tão firmemente no solo da minha razão, que romperei como um cano velho que não suportou mais. E responderei a um olhar torto ou a uma gracinha com a potência acumulada de todos os olhares tortos e de todas as gracinhas que vieram antes e eu não tive coragem de responder.

E nessa hora eu perderei a postura, o sorriso, o penteado e tudo mais que me higieniza para a sociedade. Ficarei feio, serei inadequado, bruto. Pro inferno com a minha graduação, minhas viagens, meu emprego e meu CEP. Porque a opressão me anula, tomando tudo isso de mim e me levando de volta à estaca zero. A opressão me joga no canto de uma cela, como um bicho, e me confere nova identidade: um animal marginal.

E não importa o que eu faça, não importa quão certo eu esteja, nessa hora eu nunca ganho. Pois em meu momento de maior razão é precisamente quando a perco.

richard1

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richard a. chance

Hoje eu compreendo melhor os revoltados.

Como o colega que estilhaçou, a socos, as vidraças da sala de aula da terceira série, em um ataque de fúria quase vinte anos atrás — morador da favela próxima à escola, a merenda era a melhor refeição do seu dia, senão a única. Ele sofria abusos, desde a professora racista e que não gostava de pobre, que o agredia fisicamente dentro de sala, até sabe deus o que mais ele devia passar em casa.

Ou a travesti do centro de Curitiba, que, vestindo sua armadura de mulher perigosa, veio até a minha mesa no restaurante lotado tirar satisfação do porquê esbarrei nela na fila do bufê, me deixando sem opção a não ser pedir desculpas.

Ou todas as outras mulheres, que estão fartas.
Os negros, os pobres, nós da população LGBTQI.
Basicamente, todo ser humano que não seja um homem, branco e heterossexual em abril de 2018.

Os que tem suas vozes exterminadas, os que são sacaneados desde o dia 01.
Todos muito cansados.


Texto originalmente enviado na edição da 15 da newsletter Acelera Cometa! no dia 04/04/2018. Para assinar e receber por e-mail, basta preencher o formulário na barra lateral deste site.

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