O TEMPO BACURAU

Bacurau é um filme de 2019, criação de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. A história acontece no Brasil “daqui alguns anos” e retrata acontecimentos em uma vila do interior de Pernambuco chamada Bacurau.

Bacurau é uma distopia, e não há qualquer necessidade de dar voltas em torno do óbvio: o universo do filme, como na falada manchete da revista de cinema francesa, é “o Brasil de Bolsonaro”; o que vemos na tela é uma alegoria premonitória.

O filme apresenta figuras misteriosas. Quais são, exatamente, as histórias de vida de Domingas, Lunga, Pacote, Teresa e todos os outros? O fato é que não importa de onde eles vêm ou por quê, apenas que todos terminaram ali, juntos. Bacurau não é um filme sobre indivíduos, mas sim sobre um tempo; sobre um fantasma que cresceu demais e trará consequências atrozes.

Está tudo ali, metáfora atrás de metáfora.

Bichas, putas, travestis, sapatões, pessoas todas brasileiras portanto miscigenadas, nenhuma delas santa e portanto humanas. Com sede, entorpecidas, desamparadas, acumulando revolta, abusadas por quem financia a sua sede, sobrevivendo e morrendo no centro do centro do centro do Brasil. A gente que, se antes estava à margem, não consegue agora se achar no mapa.

Vemos a classe média delirante, que acha que pode fugir do tempo-bacurau. E os brasileiros do sul, patéticos, que chegaram à conclusão de que são brancos, imunes ao bacurau que o tempo fará de todos nós.

Não por acaso, a escola e o museu de História de Bacurau, orgulho da vila, são também personagens importantes da narrativa. Nesses locais a população encontrará esperança, proteção e resistência.

Kleber e Juliano conduzem o filme numa direção quase onírica. Gestos dos personagens e suas interações na primeira metade do filme me confundiram e levaram a questionar se de fato eu estava assistindo a uma peça realista, ou se seria Bacurau uma fantasia, matéria dos sonhos. A ponto de colocarem um disco voador no céu do sertão, cena acompanhada por efeitos sonoros intergaláticos que beiram o cômico, quase ridículo, surreal, e que não posso descrever de outra forma senão como algo saído de um episódio de Chapolin Colorado.

O disco voador nada tem de surreal ou cômico, e acaba aí o onirismo do filme. Das manobras de linguagem que Kleber e Juliano utilizam em Bacurau, esta é uma das que fez eu me jogar para trás na poltrona do cinema. Que jogo bem feito, que mensagem poderosa.

O que explica o disco voador no céu é, na verdade, uma tragédia tão real quanto a areia das ruas da vila e bem menos metafórica do que imaginamos. É preciso prestar atenção aos detalhes, ao cenário, às escolhas feitas nesse filme. Me parece que tudo tem o propósito de nos conduzir finalmente ao personagem principal da história.

O protagonista de Bacurau é a resistência dos moradores dessa vila — e, de novo, são símbolos por todos os lados. Bichas poderosas precisam sair de seus esconderijos para liderar o contra-ataque junto à população que se organiza*. Todos munidos de armas que só podem ser acessadas quando o povo descobre a sua História, caso contrário não há salvação, seremos todos engolidos pelos invasores que navegam o novo tempo.

Bacurau é a sociedade brasileira representada em um povoado no sertão. O filme sintetiza, assim, a realidade construída nos últimos anos. Começamos duvidando, em alguns momentos foi até cômico. A ameaça passou a ser absurda demais para ser verdade. Era impossível, e agora cá estamos, atônitos com tanta realidade e gosto de sangue na boca.

*fiz aqui uma pequena alteração; na versão original, enviada na newsletter do dia 15/09, o texto dizia “…liderar o contra-ataque junto à população revoltada e faminta.” — Não são retratadas pessoas famintas em Bacurau. Não por comida. Há, sim, o corte criminoso no fornecimento de água para a comunidade, assim como também faltam remédios e itens da cesta básica. Porém, ao descrever a população de um vilarejo do interior de Pernambuco como “faminta”, por mais que o adjetivo não tenha sido empregado em sentido literal, acabo invocando uma imagem ultrapassada do sertanejo, que já não se aplica há alguns anos (por que será?); o sertanejo carente, ingênuo, manipulável. E não é isso o que se vê no filme. Muito pelo contrário. E é tudo o que direi. Assista a Bacurau.

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