JÚLIO

Júlio tomou um susto ao ouvir chamarem seu nome bem no meio do showzinho que estava dando na sala de casa. Quem chamava era um gostoso na língua, uma antiga alegria na garganta, visita que ele não recebia há séculos, desde que aprendera desejos novos e deixara de lado a sede de chupar tijolo no quintal, memória de quando rabiscava no cimento, bem assim, J-U-L-I-O-acento agudo no U. Até que um dia, era já mais de tardinha, Júlio chegou o pedaço de tijolo bem perto do nariz, só para olhar, e deixou tocar na língua, que ele nem lembrava de ter botado para fora. Antes de lamber o gosto, ele já queria comer o cheiro, e chupou o suco do pedaço de tijolo com tanta vontade que a mãe de Júlio teve de bombear os dedinhos dos seus pés de volta para fora.

Eram alaranjados por dentro os cacos do rinoceronte-cachepô de cerâmica que Júlio estilhaçou na parede da sala, agora já num outro tempo, sem mãe e sem quintal. Iguais ao tijolo de que Júlio tinha fome quando existia um quintal e existia uma mãe. O alaranjado de cerâmica era o avesso do rinoceronte-cachepô-lindo, de pele envernizada, gostosa de tocar e salpicada com pontinhos coloridos, iguaizinhos às pintinhas nos ombros e nas costas de Dalton, que Júlio dizia “olha que eu vou contar essas pintinhas”, e Dalton dava risada, e Júlio dizia “eu vou contar quantas tem”, e Dalton ria e dizia que não podia, e Julio “olha…” e Dalton nada, até Júlio esmigalhar o rinoceronte na parede e sentar sozinho chupando cacos de cerâmica no chão da sala. Sem Dalton, sem mãe e sem quintal, sem alegria e sem gostoso.

Exercício de escrita da oficina da Natália Borges Polesso (Controle; Amora; Recortes para um álbum de fotografia sem gente), que aconteceu na Escrevo, aqui em Curitiba em 2018. O exercício era pensar em um objeto pelo qual tenho apreço e, como que numa meditação guiada, imaginar como seria interagir com esse objeto de várias maneiras. Então tiramos alguns minutos para escrever um pequeno conto em que esse objeto estivesse presente e fosse importante. Escolhi esse cachepô-rinoceronte (da @maruyamacamila) e aqui está o resultado revisado — ler em voz alta é sempre muito mais legal.

o objeto cahepô-rinoceronte-lindo
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