MONÓLOGO 01

Comentário e monólogo abaixo enviados originalmente em uma das últimas edições da newsletter.
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Nota:
O texto que envio hoje foi escrito há mais de dois anos a pedido do meu amigo R.

R. estudava interpretação e uma de suas avaliações seria apresentar um monólogo de, se bem me lembro, até cinco minutos.

Minha ideia aqui foi usar a memória do personagem como recurso para R. explorar emoções diferentes, cuidando para que o texto não perdesse a objetividade: não havia espaço para acessórios (nunca há), cada recordação teria, necessariamente, que contribuir para o tecido da história (sempre tem).

Considerei também que, quando contamos algo verbalmente, não trazemos um relato por escrito e revisado, a não ser quando repetimos sempre o mesmo caso, aquela anedota; Caso contrário, no improviso, lembramos de informações relevantes fora de hora, ideias vem de forma desordenada, enfim, ficamos um pouco dependentes da memória. Foi essa naturalidade que tentei imprimir.

Revisei o texto hoje antes de enviar aqui para vocês.
Confesso que não estou totalmente satisfeito com o resultado, e também não sei o que poderia ser diferente. Fato é que se eu não enviar e, principalmente, se eu não escrever, nunca vou sair do lugar. Assim é que é. E você que me lê pode ajudar com uma crítica construtiva, vou ficar feliz em ler — tem gente muito fera abrindo a newsletter  ;-)♥
O que você achou do monólogo? Sentiu falta de algo?

Espero que estejam todos em segurança.
Cuidem-se.

Monólogo 1

Eu lembro da minha mãe trancando a casa toda depressa, falando baixo, me puxando pelo braço. Era de madrugada e meu irmão tava esperando na calçada, sentado nas malas.

Depois, eu lembro de acordar com o sol entrando pela janela do ônibus, minha mãe fazendo carinho no meu rosto.

Perguntei aonde a gente tava indo e cadê o meu irmão.
“Pra nossa casa nova”, ela respondeu. 
Ela apertou meu nariz, assim, igual a um botão, e falou que “lá vai ser bom demais, só nós três.”

E me mostrou meu irmão dormindo na poltrona do outro lado do corredor.

Meu irmão é bem mais velho. Ele entrou na escola muito antes de mim, assim que nós chegamos aqui. Minha mãe trabalhava o dia todo e me deixava com uma vizinha. Quando ele chegava da aula, nós brincávamos a tarde inteira até minha mãe voltar e nos levar pra casa.

Eu era doido com a escola, queria começar a estudar também. Eu queria aprender, fazer lição, escrever nos meus cadernos, comer merenda e ir pro recreio com os outros meninos. Mas quanto mais eu queria, mais parecia que demorava.

Um dia meu irmão chegou e disse que ia me ensinar a ler e a escrever.
Ele era tão inteligente que deu conta de me fazer ecrever meu nome naquela tarde mesmo. Me ensinou a desenhar as letras e os sons que elas faziam juntas. Eu não podia acreditar, acho que nunca fiquei tão feliz na vida. À noite, minha mãe chegou e eu mostrei pra ela o que meu irmão tinha me ensinado; o meu nome escrito na folha. Aí eu escrevi o nome dela inteirinho também, ali na hora. Ela até chorou.

Eu até-que-enfim um dia entrei na escola e aprendi a escrever mais um mundo de coisas. Aprendi também a fazer conta, aprendi sobre os planetas e os animais.

Teve uma vez, tava um calor do cão na sala, a professora virada pro quadro passando lição — a professora mais brava que eu tive, você não ouvia um pio na sala. Eu peguei uma paçoca de rolha, abri bem devagarzinho, sem fazer barulho, e taquei no ventilador de teto. Aquilo bateu, fez um barulhão, espirrou paçoca pra tudo quanto é lado. A professora deu um berro e se jogou no chão, a turma gritava de gargalhar.

Não foi a primeira vez que eu fiquei de castigo. Ligaram no serviço da minha mãe e ela me deixou um semana sem sair de casa depois da aula. Que ideia é essa de jogar paçoca no ventilador? Meu irmão me contou que ela riu escondido depois que eu levantei da mesa.

A gente era feliz mesmo, do jeito que ela prometeu no ônibus.

Foi quando chegou a minha tia.
Desse jeito, do nada. Mamãe falou que ela ia morar com a gente por uns tempos, que ela precisava dessa ajuda.

Eu quase não conhecia essa nossa tia. Se visse na rua, não sabia nem quem era. Ela disse que me viu nascer, que cuidou de mim pra minha mãe e que, não fosse por ela, eu não tava nem aqui pra contar história. Que minha mãe tinha muito que agradecer a ela.

Minha tia dizia que agora o trabalho dela era cuidar da gente pra minha mãe poder trabalhar sossegada, mas ela só assistia TV o dia todo. Às vezes saía, voltava, ficava no portão, saía de novo.

Minha mãe não falava nada.
Meu irmão odiava ela. Tudo o que ela mandava fazer, ele fazia o contrário.

Eu também não gostava da minha tia. Parece que, desde que ela chegou, alguma coisa saiu do lugar e tudo começou a dar errado. Minha mãe vivia nervosa, brigava à toa, e nada da tia ir embora.

Um dia, meu irmão começou a sumir também. Todo dia voltava só de noite, antes da minha mãe chegar em casa. Disse que tava fazendo bico no mercado, na oficina, não sei mais onde. Que não podia me levar e que eu não podia contar pra ninguém.

Pra mim era tudo mentira, que era só pra não ter que aguentar minha tia.
Isso durou muito tempo, até minha mãe pegar meu irmão roubando dinheiro da bolsa dela.

Eu só acordei de madrugada com a barulheira. Ela chorava, a minha mãe, eu nunca tinha visto isso, e revirava nosso quarto. Tirou gaveta, levantou o colchão. Disse que ele só podia estar mexendo com coisa errada.
Ela bateu na cara dele, ele nem defendeu.

Acontece que a minha tia tinha contado pro meu irmão onde nosso pai vivia.
Falou a cidade, perto de onde era a casa, deu até o nome completo dele.
Foi de maldade que ela fez isso.

Minha mãe parecia que tinha tomado um tiro no peito.

Meu irmão chorava baixo, de vergonha, escondendo a cara e pedindo perdão. Disse que não era roubo, que ia devolver tudo, ele só queria encontrar o pai.
Não tinha o que fazer.
Ele tinha guardado quase todo o dinheiro da passagem de ônibus pra ir atrás do nosso pai.

No outro dia, minha mãe chegou com uma passagem de ônibus pra ele.
E trouxe também uma segunda passagem, que era a dela. Não falou mais uma palavra.

*

Meu pai não quis ver meu irmão.
Mandou dizer que não tinha filho nenhum, que era pra ele ir embora do jeito que ele veio.

Minha mãe assistiu da esquina, humilhada.
Ela estava esperando meu irmão pra eles voltarem pra casa.

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